Minha experiência em Manguinhos

por Cristina Francesconi


 
A vida na Favela é como o vôo das pipas. Voadoras, românticas e frágeis, entregues a um sopro que freqüentemente trai. Capazes de vôos altíssimos, mas ligadas a um fio invisível que governa e vincula o direito à vida e à liberdade. É assim a vida na favela, assim é Manguinhos.Chego de noite à “Casa Viva”, sede da REDECCAP no coração de Manguinhos. É tarde, mas tem ainda movimentação de rapazes atentos no trabalho: cumprimentos, apertos de mãos, sorrisos, um revigorante café (o primeiro dos muitos que seguiram nos dias depois) e logo me sinto em casa.

A partir da manhã seguinte, começa o meu verdadeiro conhecimento de Manguinhos, do que significa morar e crescer na favela, um lugar sem regras, sem direitos, sem tutela, onde o valor da própria vida cai tanto abaixo que parece virar só um alvo que joga com a sorte.

Nos becos o sol nunca entra, os rapazes jogam futebol com a habilidade e a fantasia que podemos encontrar nos grandes campeões, entre lama, esgotos, tráfico. Maços de fios elétricos chovem de qualquer lado, desarranjados. Os espaços mais amplos têm a aparência duma enorme lixeira e grupos de garotos, em cima de motos ou de fracos cavalos, ficam andando na delinqüência e na degradação.

Casa Viva é um espaço onde se desenvolvem diferentes atividades, como a oficina de pintura, de vídeo, de música, a escola para adultos, as esportivas e a assistência jurídica. Casa Viva representa um abrigo certo, a única alternativa à rua, e, coisa mais importante, lugar onde é possível crescer como pessoa, onde se produzem consciência, dignidade e respeito… um respeito que é um dever, mas que também, é, sobretudo, um direito.

Eu estou aqui em Manguinhos como voluntária de CESVI, ong italiana. Vou trabalhar com as crianças na realização de murais, participando por uns dias dos projetos artísticos da Oficina Portinari. Comigo estão Viviane e Ubirajara (os professores da oficina de pintura), duas pessoas muitos sensíveis e profissionais.

As crianças são numerosas, vinte, mais ou menos, de 6 até 11 anos. Todos estão presentes, mesmo sendo feriado, a prova da atmosfera de serenidade e alegria que tem em Casa Viva. No início eles mostram uma natural timidez na frente da estranha presença duma italiana que fala um confuso ítalo/brasileiro, mas com isso eles ficam ainda mais alegres e ajuda a quebrar o gelo.  A chegada das cores acaba com as últimas barreiras!  A vivacidade é irrefreável. Arrumamos as cores e entregamos às crianças os pinceis… logo depois a parede tem uma tonalidade cor de rosa intensa.  Um pouco de insegurança leva cada criança a ver o que está sendo feito ao seu lado e a copiá-lo.

Tentamos explicar que o mundo é cheio de sombreados e de cores diferentes, e, que a fantasia pode jogar com a realidade construindo novas formas.  As convidamos a relaxar e a tentar imaginar o mundo que eles gostariam de ter. Ao fim do trabalho, na parede tem um universo fantástico feitos de favelas que crescem em cima de flores. Tem uma flor para cada símbolo do Rio. Cada casa é um arco-íris de cores e todas balançam ao ritmo da música, as crianças voam juntos com as pipas. Essa é a favela que eles gostariam de ter.

Faltam ainda uns dias antes da minha partida, mas a chuva impede de começar o mural na parede externa. Decidimos então utilizar um grande painel feito de madeira para continuar trabalhando dentro da sede da organização.  Desta vez deixamos as crianças totalmente livres, mas além das cores experimentamos o uso de materiais descartáveis de qualquer tipo (jornais, revistas, garrafas…). Todos ficam logo entusiasmados!!! Juntam-se outras crianças… no final da tarde fica até difícil convencê-los a paralisar o trabalho. O resultado é uma obra maravilhosa (quase dadaísta), uma mistura local, mas cheia de significados, que repete, dum jeito quase obsessivo, a palavra PAZ. Lembra muito a imagem da favela vista de longe, um somar-se infinito de casas sem uma regra, que enganam a percepção da vista, mas que, se analisadas com atenção, descrevem um pular de pequenos, grandes mundos.

Mundos difíceis os da favela.

Mas tem a REDECCAP com a Oficina Portinari, uma mão dada e um início para poder tomar consciência que pode existir um mundo melhor… obrigada para a coragem e a absoluta dedicação de todos que vi trabalhando e acreditar em numerosos e magníficos projetos. Tenho certeza que este mundo crescerá. As crianças de favela sonham um mundo que “floresce em cima de flores”… ajudamo-los a crescer com um sonho a realizar.


 
 
 
 
 
 
Tradução de Cristina Besseghini
   
 



 
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